Ashwagandha: o que é, para que serve e o que dizem os estudos
O que é a ashwagandha, a diferença entre raiz, folha e extratos, o que os estudos mediram sobre stress, cortisol e sono, e qual é a situação legal em Portugal.

A ashwagandha (Withania somnifera) é um arbusto da família da batateira cuja raiz é usada há séculos na medicina ayurvédica, na Índia. Pequenos estudos mediram o stress percebido, o cortisol e o sono, com resultados incertos, e a planta não tem nenhuma alegação de saúde autorizada na União Europeia. Em Portugal não está proibida, mas a sua segurança está a ser analisada a nível europeu.
O que é a ashwagandha?
Ashwagandha é o nome mais comum da Withania somnifera, um arbusto baixo da família das solanáceas, a mesma da batateira e do tomateiro. Cresce sobretudo nas zonas secas da Índia, mas também no Médio Oriente e em partes de África. Em português aparece por vezes como erva-moura-sonífera, cereja-de-inverno ou «ginseng indiano», embora não tenha qualquer parentesco com o ginseng.
O nome vem do sânscrito e costuma traduzir-se por algo como «cheiro de cavalo», por causa do odor da raiz. Na medicina ayurvédica, a medicina tradicional indiana, a raiz é usada há séculos, muitas vezes seca, moída e fervida em leite. Hoje vende-se sobretudo como extrato, em cápsulas, pó e gomas.
A ashwagandha é muitas vezes apresentada como um «adaptógeno». É um termo usado na publicidade e nas medicinas alternativas, mas não tem definição científica nem legal na União Europeia e não diz nada sobre o que a planta faz realmente no organismo.
Usa-se a raiz ou as folhas?
Tradicionalmente usa-se a raiz, e a maioria dos suplementos e dos estudos baseia-se em extratos de raiz. Tanto a raiz como as folhas contêm vitanolidos, um grupo de substâncias típicas da planta que se usa muitas vezes para descrever a composição de um extrato. As folhas têm vitanolidos em parte diferentes e em quantidades diferentes, por isso um extrato de folha não é o mesmo que um extrato de raiz.
É uma das razões pelas quais as autoridades e os investigadores têm dificuldade em tirar conclusões gerais sobre «a ashwagandha»: os produtos à venda diferem na parte da planta usada, no método de extração e na quantidade de substâncias ativas.
O que significam extrato 12:1 e extrato padronizado?
- Pó de raiz inteira: raiz seca e moída, sem concentração.
- Extrato concentrado, por exemplo 12:1: os números indicam a relação entre raiz seca e extrato final, ou seja, foram usadas cerca de 12 partes de raiz para obter 1 parte de extrato. Diz quanta matéria-prima foi usada, não quanto de uma determinada substância o extrato contém.
- Extrato padronizado: o fabricante garante um teor mínimo de vitanolidos, por exemplo uma determinada percentagem. Vários dos extratos mais estudados são extratos de marca registada, com a sua própria padronização.
Por isso, os extratos não se comparam miligrama a miligrama. O resultado de um estudo feito com um extrato concreto, numa dose concreta, vale para esse extrato e não pode ser transposto sem mais para outros produtos.
Para que serve a ashwagandha, segundo os estudos?
Há um número crescente de ensaios clínicos em pessoas, quase todos pequenos, curtos e realizados na Índia. Eis o que alguns dos mais citados mediram, e as suas limitações. É um mapa da investigação, não uma descrição do que um suplemento faz.
| O que foi medido | Estudo | Participantes e desenho | Limitações |
|---|---|---|---|
| Stress percebido e cortisol no sangue | Chandrasekhar e col., 2012 | 64 adultos com stress percebido, 600 mg de extrato de raiz por dia durante 60 dias | Um único estudo, com um extrato específico |
| Stress percebido, cortisol e qualidade do sono | Salve e col., 2019 | 60 adultos com stress, 250 ou 600 mg por dia durante 8 semanas | Poucos participantes por grupo, curta duração |
| Ansiedade, cortisol matinal e hormonas | Lopresti e col., 2019 | 60 adultos com stress, 240 mg por dia durante 60 dias | A escala DASS-21 não diferiu de forma significativa do placebo |
| Stress e ansiedade, em conjunto | Akhgarjand e col., 2022 (meta-análise) | 12 estudos, 1002 participantes | Os autores classificaram a certeza da evidência como baixa e os estudos como muito diferentes entre si |
| Sono, em conjunto | Cheah e col., 2021 (meta-análise) | 5 estudos, 400 participantes | Efeito global pequeno, maior em pessoas com perturbações do sono; poucos dados de segurança |
| Testosterona e DHEA-S em homens | Lopresti e col., 2019 | 57 homens com excesso de peso e cansaço ligeiro, 40 a 70 anos (43 terminaram), 8 semanas por tratamento | O cansaço, a vitalidade e o bem-estar sexual autoavaliados não diferiram do placebo; o cortisol também não |
Em comum, estes estudos são pequenos, raramente passam das doze semanas, muitas vezes são financiados pelos fabricantes dos extratos e usam extratos e doses diferentes. Isso não quer dizer que os resultados estejam errados, mas não chega para dizer o que a ashwagandha faz nas pessoas em geral.
A ashwagandha baixa o cortisol?
Vários estudos pequenos mediram o cortisol e registaram valores mais baixos no grupo da ashwagandha do que no grupo placebo ao fim de cerca de oito semanas; outro, em homens, não encontrou diferença. Mas o cortisol é uma medida difícil: varia muito ao longo do dia, e uma análise isolada diz pouco. Além disso, os estudos mediram-no de formas e a horas diferentes.
No conjunto, não se pode dizer que a ashwagandha baixa o cortisol, apenas que é algo que os investigadores estudaram, com resultados incertos. Como funciona o cortisol e o que o influencia está explicado em Cortisol: o que é, cortisol alto e baixo.
A ashwagandha é boa para a mulher e para o homem?
A maioria dos estudos incluiu mulheres e homens. Um número menor analisou as hormonas e a qualidade do esperma nos homens, e alguns poucos a função sexual nas mulheres. São demasiado poucos e demasiado pequenos para dizer algo seguro sobre benefícios para um ou outro sexo.
Mais importante é saber quem deve evitá-la: grávidas e mulheres a amamentar, pessoas com doença da tiroide, doença do fígado ou doença autoimune, e quem toma certos medicamentos. Explicamos tudo em Ashwagandha: contraindicações e efeitos secundários.
A ashwagandha emagrece?
Não há evidência científica de que a ashwagandha faça emagrecer ou reduza a gordura abdominal. Um único estudo com 52 adultos com stress crónico mediu o peso como um de vários indicadores durante oito semanas, o que não permite tirar conclusões. A ideia de uma «barriga de cortisol» também é uma simplificação, como explicamos no artigo sobre o cortisol.
A ashwagandha é proibida em Portugal?
Não. A ashwagandha pode ser vendida em suplementos alimentares em Portugal, e a responsabilidade pela segurança do produto é de quem o coloca no mercado. A situação, porém, não é igual em toda a Europa:
- Portugal: segundo a DECO PROteste (julho de 2026), a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) indicou que, sem uma decisão europeia, a planta não está proibida. A Direção-Geral da Saúde sinalizou-a à Comissão Europeia como uma substância com potenciais efeitos adversos.
- União Europeia: a segurança da ashwagandha nos alimentos está a ser analisada a nível europeu. Se a UE decidir restringi-la, Portugal terá de aplicar essa decisão.
- Dinamarca: a venda de alimentos com ashwagandha, incluindo suplementos, é proibida, depois de uma avaliação de risco da Universidade Técnica da Dinamarca (DTU) que não conseguiu estabelecer uma dose segura.
- Outros países: autoridades da Alemanha, de França e dos Países Baixos publicaram avaliações em que a desaconselham a vários grupos, a começar pelas grávidas e pelas mulheres a amamentar.
A preocupação vem sobretudo de casos raros de lesão hepática, de alterações das hormonas da tiroide e da falta de dados sobre a gravidez. Os pormenores estão no artigo sobre contraindicações.
Porque é que a ashwagandha não tem alegações de saúde autorizadas?
Na União Europeia, um alimento só pode ser publicitado com alegações de saúde avaliadas cientificamente e autorizadas. Para vitaminas e minerais há uma longa lista dessas alegações. Para as plantas, a chamada lista de substâncias botânicas, a avaliação está suspensa há muitos anos, e nenhuma alegação sobre a ashwagandha está autorizada.
Por isso, ninguém que venda ashwagandha na UE pode afirmar que reduz o stress, melhora o sono ou aumenta a testosterona, sejam quais forem os resultados de estudos isolados.
Porque é que muitos suplementos de ashwagandha têm vitaminas?
Como a planta não tem alegações autorizadas, é comum os fabricantes juntarem-lhe vitaminas que as têm, sobretudo vitaminas do complexo B. Duas das mais usadas são o ácido pantoténico (vitamina B5) e a vitamina B6. Desde que o produto seja pelo menos uma fonte da vitamina, aplicam-se, entre outras, estas alegações autorizadas:
- O ácido pantoténico contribui para um desempenho mental normal.
- A vitamina B6 contribui para uma normal função psicológica.
- O ácido pantoténico e a vitamina B6 contribuem para a redução do cansaço e da fadiga.
- A vitamina B6 contribui para o normal metabolismo produtor de energia e para o normal funcionamento do sistema nervoso.
Nesses produtos, as alegações dizem respeito às vitaminas, não à ashwagandha. Saiba mais em Vitamina B6: para que serve e em Vitaminas para o cansaço. Se decidir tomar ashwagandha, veja primeiro como tomar ashwagandha.
Perguntas frequentes
O que faz a ashwagandha?
Não se sabe com certeza. Pequenos estudos mediram o stress percebido, o cortisol e o sono, com resultados incertos, e nenhuma alegação de saúde sobre a ashwagandha está autorizada na União Europeia.
O que é a erva-moura-sonífera?
É um dos nomes portugueses da Withania somnifera, a planta a que se chama ashwagandha. O nome científico «somnifera» vem do uso tradicional da raiz, não de um efeito comprovado.
Qual é a polémica em torno da ashwagandha?
A Dinamarca proibiu-a nos alimentos por não ser possível fixar uma dose segura, e outras autoridades europeias alertaram para casos raros de lesão hepática, efeitos na tiroide e riscos na gravidez. A segurança está a ser analisada a nível europeu.
A ashwagandha é o mesmo que ginseng?
Não. Às vezes chama-se «ginseng indiano», mas pertence à família da batateira e não tem parentesco com o ginseng.
Fontes
- DECO PROteste – Ashwagandha: o que deve saber sobre a planta proibida nos suplementos alimentares na Dinamarca (2026)
- DGAV – Suplementos alimentares
- Manual MSD (versão para a família) – Ashwagandha
- Fødevarestyrelsen (Dinamarca) – Ashwagandha i kosttilskud og drikkevarer
- RIVM – Risk assessment of herbal preparations containing Withania somnifera (2024)
- BfR – Ashwagandha food supplements with potential health risks (2024)
- Regulamento (UE) n.º 432/2012 – alegações de saúde autorizadas (texto em português)
- NCCIH – Ashwagandha
- Chandrasekhar e col. – Indian J Psychol Med (2012)
- Salve e col. – Cureus (2019)
- Lopresti e col. – Medicine (2019)
- Akhgarjand e col. – Phytotherapy Research (2022), meta-análise
- Cheah e col. – PLoS One (2021), meta-análise sobre o sono
- Lopresti e col. – American Journal of Men’s Health (2019)
- Choudhary e col. – J Evid Based Complementary Altern Med (2017)



